“Da morte à vida”

A dor romba, da qual já falei aqui, aquela que nos atinge no cuore, forma um oco na alma, dando-nos a impressão de que fomos trespassados por um golpe, bem certeiro, de enorme covardia, quando nossa essência se desfigura, nossos sonhos se esvaem e fica esse enorme buraco no ser (“As dores rombas de setembro” – O POVO – 27/09/2016). Essa dor veio de novo. Dessa feita provavelmente atingiu as mais de cinquenta milhões de brasileiras negras e pardas desse Pais, e também boa parcela do nosso povo desvalido do necessário ao bem viver. Foi assim que a morte de Marielle nos atingiu, minando a todos e, principalmente, a sua exemplar representação de injustiçados e oprimidos brasileiros.

No primeiro momento vem a questão: por que? Nem se sabe exatamente o motivo, mas uma coisa é certa: foi exibicionismo do poderio do crime, seja de qual milícia. O que eles disseram, eliminando Marielle e Anderson, foi que detêm o poder, até porque usaram armas adquiridas com o nosso dinheiro, pois pertenciam ao Estado.
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Luto

Ando escrevendo sobre a saga de Joel, nome fictício de um personagem real de um livro. Foi um cavador de poços que, com intuição e criatividade, conseguiu driblar a indiferença do estado – entenda-se aqui como instituições político-administrativas – e salvou da morte mais de mil e duzentos homens, cavadores como ele. Esses, adoeciam e morriam adultos jovens, de silicose, nas fases mais intensas de seus sentidos, sentimentos, emoções e produção (Silicose em cavadores de poços: da descoberta ao controle. JBP 25 (1) 1999).

O luto assolou por dez anos os cavadores e suas famílias, porque as normas administrativas que deveriam não apenas regulamentar, mas permitir ajustes conforme necessidades inesperadas ou especiais de cada momento ou lugar, ficaram bitoladas nos seus dizeres: não há norma para educar cavadores de poços para pararem de cavar e não adoecerem e morrerem de silicose.

A bitola, sob forma de tais normas, acomodou e acomoda confortavelmente as políticas administrativas, não permitindo que se teste ou use novas ideias ou descobertas que mudem o rumo da mesmice, a fim de oferecer vida melhor para o povo.

A ideia era educar os cavadores para mudar uma trágica realidade. O Estado brasileiro não o fez, mas Joel sim. Em associação com seu grupo de companheiros aplicou um programa educativo exitoso, tendo conseguido encerrar esse ciclo de luto coletivo que durou dez anos.

Tudo se repete quando agora o luto vem sob a forma de um sem número de mortes por falta de diagnóstico, estratégias tecnológicas e medicamentos para controle das doenças raras. O mote é o mesmo: as políticas públicas não se renovam o necessário a fim de darem real valor à vida, de modo mais amplo criativo e forte.

Vivemos na fraqueza da acomodação e covardia politico-administrativa, usando essa última palavra, muito bem colocada no discurso de Fátima, na evidenciação desse luto, no dia 28 de fevereiro de 2018: o dia de “Luto pelos raros”. Os acomodados não peitam de frente a morte anunciada, como fez Joel, como faz Fátima e os raros. Faltam-lhes coragem e humildade.

Chega de se esconderem sob a máscara de que são e compõem o melhor e mais igualitário programa de saúde do mundo. Será preciso valer o cuidado amplo e completo aos seres, para ganharem essa peja.

DraMarciaDra. Márcia Alcantara Holanda
Médica pneumologista; coordenadora do Pulmocenter; membro da Academia Cearense de Medicina
Coordenadora da Comissão de Asma da SCPT
pulmocentermar@gmail.com

Fonte: O povo

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Nossa musa do Pulmocenter, Dona Alice virou uma atleta!”


Programa de Reabilitação Pulmonar é capaz de fazer com um linda senhora nonagenária! Nossa musa do Pulmocenter, Dona Alice virou uma atleta!” Essa prática leva os portadores da doença, antes imobilizados pela falta de ar, a uma vida ativa, participativa e saudável

Krieger (2007), citado no Wikipédia, diz que atleta, no sentido amplo da palavra, é o indivíduo que pratica qualquer tipo de esporte, ou atividade física que cause prazer ou melhora da forma física e da saúde. Continue lendo

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Maria Alcântara Holanda: São Francisco, o santo da relutância

A Caravana de Maria Salgado até hoje é livre, abriga quem pode pagar sua comida e quem não pode

As romarias a São Francisco que vão de Fortaleza ou de outras paragens ao Canindé- CE acontecem neste mês de outubro. Nos anos de 1999 e 2000, palmilhei o percurso dessa romaria junto à Caravana Maria Salgado criada por ela em 1935. Seu Edson Salgado, hoje falecido, filho de D. Maria, era o coordenador dessa caminhada de amor, esperança e fé no Santo. Apresentei-me a ele dizendo de antemão que não tinha uma religião definida, mas andava, por meio de leituras, impressionada com o papel de São Francisco nas mudanças e aprimoramentos aplicados por ele a seres humanos e à natureza, e que aceitaria de bom grado todas as regras disciplinares da Caravana se ele me aceitasse como peregrina. Continue lendo

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Lançamento do livro Farol – coletânea de contos

E se a única imagem que eu tivesse da minha melhor amiga fosse a de um polegar apontado para cima? O fenômeno científico chamado “plastificação dos neurônios” serviu de inspiração ao conto “Minha amiga virou um polegar”, de Márcia Alcântara Holanda.

Márcia Alcântara tem 76 anos, nasceu em Fortaleza e é médica pneumologista, agraciada pelo maior prêmio da Pneumologia Brasileira no ano 2000. Seu conto “Minha amiga virou um polegar” e os escritos de outros 28 autores integram o “Farol”, coletânea produzida pelo Ateliê de Narrativas Socorro Acioli.

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